ENTREVISTA COM ZIRALDO
Lembranças de Infância
Marcio Santos
Pintor, jornalista, teatrólogo, chargista, caricaturista e escritor, Ziraldo Alves Pinto, nasceu em Caratinga, Minas Gerais, no ano de 1932. Criador da Turma do Pererê e co-fundador do jornal O Pasquim, entre outras dezenas de atividades, Ziraldo tornou-se conhecido do público infantil ao escrever, em 1969, seu primeiro livro infantil, FLICTS, que se tornou sucesso em todo o mundo. Em 1980 deu à luz ao Menino Maluquinho, que se tornou um dos maiores fenômenos editoriais do Brasil, tendo sido adaptado para o teatro, quadrinhos e internet, além de duas adaptações cinematográficas. Em parceria com o Portal Educacional, Ziraldo participou do projeto Oficina do Livro, dividindo com milhares de crianças a autoria de vário livros virtuais.Atualmente, Ziraldo está em cartaz com outra peça de teatro, A Bonequinha de Pano, o primeiro texto do autor escrito diretamente para os palcos. Em entrevista exclusiva, Ziraldo nos conta sobre a criação da peça, suas obras e suas lembranças da infância.
Atividades e Experiências - Por que você demorou tanto a escrever uma peça de teatro?
Ziraldo- Trabalho muito na base do impulso. De repente, me dá vontade de escrever um livro para criança. Aí, escrevo um livro para criança. Nunca tinha tido vontade de escrever uma peça de teatro para criança. Acho muito chato. Aí, um dia, assisti uma adaptação de um dos meus livros para teatro. Aliás, quase todos os meus livros foram adaptados para o teatro, até o “Vito Grandam” que eu não podia acreditar que pudesse ser teatral.Muito bem: aí, achei a atriz da tal peça fantástica. Era a Zezé Fassina e ela fazia o bichinho invisível do Planeta Lilás. Aí, disse para ela: “Vou escrever uma peça para você.” Era uma peça para o talento da Zezé. Me deu vontade de escrever a peça! Só que demorou vinte anos para ficar pronta.
A&E - E por que ela é uma peça e não um livro?
Ziraldo- Não a fiz em forma de livro, porque na minha cabeça era, desde que ocorreu, uma peça de teatro.
A&E - O livro trata de lembranças da infância. Quais são as melhores lembranças de sua infância?
Ziraldo- Certamente as lembranças da minha infância não têm boneca (risos). Mas literatura é invenção. No meu caso é até mais um exercício do que tudo. É um belo exercício imaginar o que pode se passar pelo coração de uma pessoa de outro sexo. Ou de uma boneca. As lembranças de minha infância estão espalhadas pelos meus livros. Acho que as mais explícitas estão no “Menino Quadradinho” e no “Vito Grandam”.
A&E - Qual a sua opinião sobre a montagem da peça? Ela transmite o que você realmente pensou quando escreveu?
Ziraldo- Raramente tenho visto uma produção mais bem cuidada. Eu preferia uma outra solução para o cenário. Clássica, como essas óperas realistas: tá lá o baú; apagou a luz; acendeu! Já apareceria o baú gigante. Era assim que estava na minha cabeça. Mas eu sou apenas o autor da peça. Escrita a peça, ela passa a viver sua vida própria. É como filha. Casa com quem ela quiser. Felizmente a Boneca de Pano foi feliz no casamento. A solução encontrada para o cenário foi fantástica, criativa. Um impacto!
A&E - Vários livros seus já viraram peças. O que você sente quando vê seu texto transformado para outra mídia?
Ziraldo - Me divirto e fico muito feliz. É sempre uma aventura. A Zezé, que era uma menininha ágil quando decidi escrever a peça para ela, esperou vinte anos pra receber o texto definitivo. Que, é bom que se diga, teve muito suor do Puruca (Carlos Arruda), o eterno diretor da Zezé. O maravilhoso foi que a Zezé manteve as juntas bem untadas pra fazer a boneca de pano mais desconjuntada que eu já vi na minha vida. Ela matou a pau. Eu sabia que ela ia fazer direito as duas personagens. E ela faz com tal generosidade, com tanto amor pelas personagens da peça que o resultado é esse susto. Acho que a montagem que já tem sete indicações para prêmios, no Rio, vai ganhar todos os sete! (N.do E.: A peça Bonequinha de Pano concorre ao Prêmio Maria Clara Machado em 7 categorias: atriz, direção, iluminação, cenário, trilha sonora, texto e espetáculo.)
(...)





