Sunday, October 16, 2011
Sunday, October 16, 2005
ENTREVISTA COM ZIRALDO
Lembranças de Infância
Marcio Santos
Pintor, jornalista, teatrólogo, chargista, caricaturista e escritor, Ziraldo Alves Pinto, nasceu em Caratinga, Minas Gerais, no ano de 1932. Criador da Turma do Pererê e co-fundador do jornal O Pasquim, entre outras dezenas de atividades, Ziraldo tornou-se conhecido do público infantil ao escrever, em 1969, seu primeiro livro infantil, FLICTS, que se tornou sucesso em todo o mundo. Em 1980 deu à luz ao Menino Maluquinho, que se tornou um dos maiores fenômenos editoriais do Brasil, tendo sido adaptado para o teatro, quadrinhos e internet, além de duas adaptações cinematográficas. Em parceria com o Portal Educacional, Ziraldo participou do projeto Oficina do Livro, dividindo com milhares de crianças a autoria de vário livros virtuais.Atualmente, Ziraldo está em cartaz com outra peça de teatro, A Bonequinha de Pano, o primeiro texto do autor escrito diretamente para os palcos. Em entrevista exclusiva, Ziraldo nos conta sobre a criação da peça, suas obras e suas lembranças da infância.
Atividades e Experiências - Por que você demorou tanto a escrever uma peça de teatro?
Ziraldo- Trabalho muito na base do impulso. De repente, me dá vontade de escrever um livro para criança. Aí, escrevo um livro para criança. Nunca tinha tido vontade de escrever uma peça de teatro para criança. Acho muito chato. Aí, um dia, assisti uma adaptação de um dos meus livros para teatro. Aliás, quase todos os meus livros foram adaptados para o teatro, até o “Vito Grandam” que eu não podia acreditar que pudesse ser teatral.Muito bem: aí, achei a atriz da tal peça fantástica. Era a Zezé Fassina e ela fazia o bichinho invisível do Planeta Lilás. Aí, disse para ela: “Vou escrever uma peça para você.” Era uma peça para o talento da Zezé. Me deu vontade de escrever a peça! Só que demorou vinte anos para ficar pronta.
A&E - E por que ela é uma peça e não um livro?
Ziraldo- Não a fiz em forma de livro, porque na minha cabeça era, desde que ocorreu, uma peça de teatro.
A&E - O livro trata de lembranças da infância. Quais são as melhores lembranças de sua infância?
Ziraldo- Certamente as lembranças da minha infância não têm boneca (risos). Mas literatura é invenção. No meu caso é até mais um exercício do que tudo. É um belo exercício imaginar o que pode se passar pelo coração de uma pessoa de outro sexo. Ou de uma boneca. As lembranças de minha infância estão espalhadas pelos meus livros. Acho que as mais explícitas estão no “Menino Quadradinho” e no “Vito Grandam”.
A&E - Qual a sua opinião sobre a montagem da peça? Ela transmite o que você realmente pensou quando escreveu?
Ziraldo- Raramente tenho visto uma produção mais bem cuidada. Eu preferia uma outra solução para o cenário. Clássica, como essas óperas realistas: tá lá o baú; apagou a luz; acendeu! Já apareceria o baú gigante. Era assim que estava na minha cabeça. Mas eu sou apenas o autor da peça. Escrita a peça, ela passa a viver sua vida própria. É como filha. Casa com quem ela quiser. Felizmente a Boneca de Pano foi feliz no casamento. A solução encontrada para o cenário foi fantástica, criativa. Um impacto!
A&E - Vários livros seus já viraram peças. O que você sente quando vê seu texto transformado para outra mídia?
Ziraldo - Me divirto e fico muito feliz. É sempre uma aventura. A Zezé, que era uma menininha ágil quando decidi escrever a peça para ela, esperou vinte anos pra receber o texto definitivo. Que, é bom que se diga, teve muito suor do Puruca (Carlos Arruda), o eterno diretor da Zezé. O maravilhoso foi que a Zezé manteve as juntas bem untadas pra fazer a boneca de pano mais desconjuntada que eu já vi na minha vida. Ela matou a pau. Eu sabia que ela ia fazer direito as duas personagens. E ela faz com tal generosidade, com tanto amor pelas personagens da peça que o resultado é esse susto. Acho que a montagem que já tem sete indicações para prêmios, no Rio, vai ganhar todos os sete! (N.do E.: A peça Bonequinha de Pano concorre ao Prêmio Maria Clara Machado em 7 categorias: atriz, direção, iluminação, cenário, trilha sonora, texto e espetáculo.)
(...)
Saturday, October 08, 2005
A BONEQUINHA VAI À ESCOLA
O compromisso de Ziraldo com a educação é bastante conhecido. Não menor tem sido o envolvimento e a experiência nessa área do diretor Carlos Arruda, o “Puruca”, e da atriz/produtora Zezé Fassina. Nos últimos 27 anos, eles têm se dedicado ao Projeto Escola, com mais de 40 espetáculos dirigidos ao público infanto-juvenil.
A Bonequinha de Pano é a quarta criação de Ziraldo a ser levada aos palcos dos teatros e auditórios das escolas por Puruca e Zezé. Entre os espetáculos anteriores, destaca-se o Planeta Lilás, um hino de amor ao livro e à leitura. Só no Rio de Janeiro, foram mais de 200 escolas e 50 mil espectadores. Ao longo de oito anos, em todo o Brasil, foram realizadas mais de mil sessões.
Além de divertir e emocionar, a Bonequinha de Pano tem um fundo pedagógico. Ensina as crianças a "outrarem", para usar o verbo inventado por Drummond e que inspirou Ziraldo a escrever a peça. "Outrar" é, mais ou menos, colocar-se no lugar do outro e imaginar o que o outro deseja. Quando a menina brinca de boneca, ela está "outrando". A peça também aborda a criatividade e o poder da imaginação, com momentos de forte interação com a platéia.
O público-alvo prioritário vai dos 7 aos 12 anos Mas este é um espetáculo realmente para todas as idades. Só fica de fora quem nunca foi criança.
O QUE DIZ A CRÍTICA:
"Ziraldo fez um texto poético e brincalhão, bem ao seu estilo fluente. O espetáculo é um monólogo tão bem escrito que tem cacife para virar clássico e ser encenado ao longo de anos e anos. Gerações e gerações de mulheres devem conhecer e se emocionar com a espevitada boneca Pitucha e sua dona,Leninha, interagindo no sótão da casa da avó. Na primeira parte, a atriz Zezé Fassina é a boneca. Na segunda, o cenário muda e ela vira a menina, na verdade já adulta. A transformação do cenário é uma das grandes sacadas da peça, dirigida por Carlos Arruda. Os objetos são enormes na primeira parte (uma bola grande, uma cadeira gigantesca, um baú que toma quase todo o palco), para seguir a proporção do mundo da boneca. Na segunda, para a entrada da moça Leninha, que nem se lembrava que a boneca ainda estava guardada ali naquele sótão, tudo fica do tamanho natural e as crianças da platéia decifram o jogo cenográfico." DIB CARNEIRO NETO (O ESTADO DE S. PAULO)
(...)Agora eu sei o que me acordou. Foi essa barulheira lá em baixo. A noite toda que passou. Gente andando, vozes...Tem muita gente lá embaixo! E não é barulho de criança, não! Ah, meu Deus... como é que eu vou saber? Uma boneca não pode descer a escada de um sótão, chegar lá em baixo no meio das pessoas e perguntar: ” E aí gente, aqui que é a festa? Cadê os salgadinhos?” Aí não dá pra engolir, né? Aí já não é mais teatro.(...)
FALA DA BONEQUINHA AO FIM DO PRIMEIRO ATO
CANÇÃO DE ABERTURA
acorda boneca
acorda macio
dos teus sonhos de lã
acorda sapeca
e puxa o fio
que abre a manhã
tão só no teu sótão
todos esses anos
boneca de pano
que você sonhou?
sonhou com meninas
que sonhavam ser
bonecas que também sonhavam
meninas?
falou, se mexeu?
teceu fantasias
com as linhas da noite
retalhos do dia?
boneca de pano
o tempo passou
mas agora é hora
de você acordar
dar bom dia ao dia
e de olhos abertos
vir brincar com a gente
que a manhã chegou
acorda boneca
e nos reinvente
as tramas dos sonhos
que você sonhou
O QUE DIZ A CRÍTICA:
"É uma delícia ver a paulista Zezé Fassina em "Bonequinha de Pano", texto de Ziraldo. A atriz encarna a boneca de pano Pitucha e, depois, sua dona, Leninha, já crescida. Zezé-Pitucha conquista a cumplicidade da platéia. O cenário de Alberto Camarero, com objetos gigantes que ajudam a cena a se desenrolar do ponto de vista da boneca, é outro ponto alto do espetáculo que levou sete indicações ao Prêmio Maria Clara Machado. E o final pode arrancar lágrimas das mamães que não esqueceram suas Pituchas." LÍVIA DE ALMEIDA (VEJA RIO)
FICHA TÉCNICA
Texto: Ziraldo
Direção: Carlos Arruda (Puruca)
Atriz: Zezé Fassina
Músicas: Vital Lima e Jamil Damous
Direção Musical: Vital Lima
Cenário e Figurinos: Alberto Camarero
Iluminação: Renato Machado
Direção de Corpo: Marília Baiana
Preparação Vocal: Iara Bittante
Programação Visual: Ruth Marina Lima
Fotos: Débora 70
Patrocínio: Sistema Positivo de Ensino
O QUE DIZ A CRÍTICA:
"Em "Bonequinha de Pano", de Ziraldo, Zezé Fassina encanta a platéia tanto por seu apurado trabalho corporal, quanto pela emoção que passa. O diretor Carlos Arruda explorou muito bem o talento da atriz e criou o ambiente ideal para o espetáculo. Fica até difícil imaginar o texto de Ziraldo montado sem o cenário de Alberto Camarero, tamanha a integração dos dois. As músicas de Vital Lima e Jamil Damous só acrescentam à peça. "Bonequinha de Pano" é um espetáculo para crianças maiores, que já possam não só ouvir falar das transformações da vida, mas também entendê-las. E é sobretudo um espetáculo indicado para pessoas sensíveis. De qualquer idade!"MARÍLIA COELHO SAMPAIO (O GLOBO)
"Bonequinha de Pano", primeiro texto de Ziraldo escrito especialmente para ser encenado, diverte as crianças e comove os adultos. A história é um
presente do autor para a atriz paulista Zezé Fassina, que encarna dois
personagens no espetáculo: a bonequinha Pitucha e sua dona, Leninha. Com direção de Carlos Arruda, a peça recebeu três prêmios no Maria Clara
Machado 2003, conferido pelo RioArte, sendo vencedora nas categorias MELHOR ESPETÁCULO, MELHOR TEXTO (Ziraldo) e MELHOR TRILHA SONORA (Vital Lima e
Jamil Damous).
Dividida em dois atos, "Bonequinha de Pano" combina humor e emoção para narrar a trajetória da criança ao mundo adulto e dar conta da vida real, com todas as suas alegrias, mas também com os momentos difíceis que temos que transpor. No primeiro ato, o cenário realista de Alberto Camarero é
composto por um grande baú, cadeira e livros gigantes. Em meio a esses objetos, a bonequinha Pitucha, há muitos anos esquecida no sótão da casa da vovó, relembra os momentos marcantes da vida da menina Leninha, sua dona. As brincadeiras de criança, a separação dos pais, o primeiro beijo são
alguns dos acontecimentos da vida de Leninha narrados pela bonequinha, que conta ainda para o público o seu próprio nascimento, quando a vovó a fez, com muita palha, lã, renda, linha e algodão. No segundo ato, o cenário é o sótão da casa da vovó e todos os elementos do primeiro ato tornam-sedetalhes, ganhando sua proporção normal. Em cena, Leninha, já adulta, reencontra sua antiga bonequinha e descobre, através dela, a criança que todos temos dentro de nós e que nunca deve morrer. O espetáculo conta ainda com uma trilha sonora original, composta por Vital Lima e Jamil Damous.
ZIRALDO APRESENTA ZEZÉ
Embora seja um dos autores de teatro infantil mais encenados deste país, nunca tinha escrito uma peça infantil. Meus livros é que – como filhos que surpreendem os pais – viraram peças e andaram por este país inteiro dando alegrias ao papai aqui. Sempre tive adaptadores de grande talento e, na maioria das vezes, adorei ver o Menino Maluquinho ou o Flicts vivendo, de verdade, suas emoções. Teatro faz essas mágicas!
Um dia vi Zezé Fassina vivendo o improvável bichinho do meu “Planeta Lilás”. No livro o bichinho é apenas sugerido. O leitor é que tem que imaginar como ele poderia ser. E o ator que decidir partir para sua criação no palco é que tem que inventá-lo, como um ser criado de um sopro.
A Zezé me encantou vivendo o meu bichinho. Aí, eu falei pra ela: “Vou escrever uma peça pra você. Uma peça só pra você.”
Meu Deus, quanto tempo se passou!?... Na verdade, muito pouco: Parece que foi ontem! Finalmente, a peça está pronta. Foi escrita para a Zezé, uma artista capaz de viver minha boneca e a dona dela com a verdade de quem soube amar as bonecas de sua infância, porque boneca é como mãe: só tem uma!
Aí está minha “Bonequinha de Pano”. Aí está a Zezé vivendo este personagem inventado para seu talento. Espero que as duas sejam felizes.






